sábado, 29 de novembro de 2014

Lua especial dia dos namorados.


O anoitecer já pairava sobre nós, a brisa gélida dava um charme a mais para a noite, que alias, já estava deslumbrante por si só.
As estrelas fugiam da reluzente lua, que brilhava mais que um farol no meio do breu oceânico.
Haviam esmiuçados cacos de estrelas por todo o ar.
Ah, mas a lua! Esta estava de encantar, não duvido que os lobos estivessem a cantar em algum lugar.
E minha companhia, pobre de mim, estava em outro lugar, quem sabe junto com os lobos a uivar. Quem sabe... Só sei que não estava lá. Pois lá só havia uma garota chorosa sentada com a lua.

Não sei o que elas esperavam chegar, mas eu não me cansava de fitar, a lua ouvindo o lobo a chamar, e a garota que não parava de chorar.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Não se pode salvar quem não quer ser salvo





Eu ate tentei salvar você
Juro que tentei.
Tentei mostrar o caminho
Te dizer o que fazer.
Mas não sou um tipo de exemplo
Nunca quis ser.
Mas precisava
Por você.
Por você eu precisava, eu queria ser
Mas não fui, não sou.

Sinto muito, mas não posso
Muito menos quem não quer ser salvo.
Então afogue-se
E aprenda a nadar sozinho.

Indo
de si,
des
 cendo
mais, des
sendo,
 indo,
inde
scen
 dendo
de si,
indo
ao s
eu fim,
dando
adeus
ao s
eu eu,
sem sen
tir ma
 is a si
mesmo
e a
inda
 as
sim,
ou por
is
so mes
mo, diz
end
o sim
e si
m ao s
eu mim


_Arnaldo Antunes 

Confidência


Prefiro a paciente
proeza das traças,
meu rapaz,
aos versinhos
bem traçados
dos quais
te mostras capaz
(assépticos e sérios
como os de ninguém mais).
Ah! Ler-te é
penetrar na paz
dos cemitérios.
Ainda respiras, mas já se entrelê,
junto aos títulos
dos teus livros,
os dois precisos vocábulos
 (“Aqui jaz”)
com que, um dia,
te saudarão os vivos.


[Ricardo Aleixo]

Linhas



Incontáveis linhas
como que dispersas
impensáveis línguas
como que dos pernas
cruzam-se no infinito:
ou tornam-se
linguagem
ou deixam o dito
por não dito


[Ricardo Aleixo]

domingo, 2 de novembro de 2014

“O Poeta
quando escreve,
embala a caneta num eterno balé,
que desliza com graça
e desgraça
as coreografias do coração.”

— Sérgio Vaz.
Nuvem
é você
Que não
Posso tocar

Nuvem
É você
Que me faz sombra
E às vezes chora
Sem querer

Tão lá no alto
Mesmo se salto
Não alcanço

Nuvem
É você
Por mais
Que eu almeje
Te tocar

Só faço um sonho
Que evapora ao despertar

Nuvem_Rubel

Histórias das demolições


A história das demolições
a história trágica das demolições
não acontece como no cinema
a vida não tem trilha sonora
as paredes caem silenciosamente 
(no máximo a pancada dos martelos)
a chão varrido fica melhor
(o passado não voltará no ladrilho novo)
lembrar o que quer que seja é inútil
as imagens da memória são ruins
o que ficasse em nós seria a esperança
mas o que existe não exige lembrança
o que morreu está definitivamente morto
não há sequer a vontade de chorá-lo
o luto mesmo é impossível. 

_Fabrício Corsaletti.

Desajeito


O homem inacabado
não tem posição
que lhe traga conforto 
na cama.
Luta a noite toda
com o colchão
sem que seu corpo torto posso encontrar
abrigo.
o pensamento 
do homem inacabado
gira em falso
como as rodas de um carro
encravando na lama.

_Donizete Galvão.

Solistas


Nascem os poemas nas horas turvas 
Ferocidade raiada em ondas
Os dentes escarlates da tarde
A solidão.
Ferem dissonantes o tráfego
in
Visibilidade ao redor 
Fogo salgado nas águas rápidas
Da cidade.
Morrem os poetas nas esquinas
Flautistas breves da impossibilidade.

_Fernando Paixão.

Balanço


A infância não foi uma manha de sol:
Demorou vários séculos; e era pífia,
Em geral, a companhia. Foi melhor, em parte, a adolescência, pela delícia
Do pressentimento da felicidade
Na malícia, na molícia, na poesia,
No orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha morte:
E eis que ela não sustentou o olhar 
E se esvaiu. Desde então é a morte alheia
Que me abate. Tarde aprendi a gozar
A juventude, e já me ronda a suspeita
De que jamais serei plenamente adulto:
Antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos 
Os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.

_Antonio Cicero.
“nem sempre somos
o que queremos ser.
um dia,
pássaros.
um dia,
papel amassado
no chão.
[somos as dobraduras da vida]”

— Descortinar

“Sempre há sobre o que escrever. Cabe a nós percebermos o invisível diante do que se vê!”

— Anne

As três palavras mais estranhas


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

[Wislawa Symborska]
"E pra que serve mesmo a palavra?
não dá pra explicar a solidão
se você não arranca ela
se você não faz questão
se mesmo depois de tudo
só nos resta um pouco de nada
uma curva distraída no meio da estrada"

[Autor Desconhecido]

“Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham…”

— Machado de Assis

Palavras Aladas


Os juramentos que nos juramos
Entrelaçados naquela cama
Seriam traídos, se lembrados
Hoje. Eram palavras aladas
E faladas não para ficar
Mas, encantadas, voar. Faziam
Parte das carícias que por lá
Sopramos: brisas afrodisíacas
Ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois, dentre os atos
Da língua, houve outros mais convincentes
E ardentes sobre os lençóis. Que esses,
Em futuras noites, em vislumbres
De lembranças sempre nos deslumbrem.

[Antonio Cícero]

O país das maravilhas



Não se entra no país das maravilhas,
Pois ele fica do lado de fora,
Não do lado de dentro. Se há saídas
Que dão nele, estão certamente à orla
Iridescente do me pensamento,
Jamais no centro vago do meu eu.
E se me entrego às imagens do espelho
Ou da água, tendo no fundo o céu,
Não pensem que me apaixonei por mim.
Não: bom é ver-se no espaço diáfano
Do mundo, coisa entre coisas que há
No lume do espelho, fora de si:
Peixe entre peixes, pássaro entre pássaros,
Um dia passo inteiro lá.


[Antonio Cícero]

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Balanço



A infância não foi uma manha de sol:
Demorou vários séculos; e era pífia,
Em geral, a companhia. Foi melhor, em parte, a adolescência, pela delícia
Do pressentimento da felicidade
Na malícia, na molícia, na poesia,
No orgasmo; e pelos livros e amizades.
Um dia, apaixonado, encarei a minha morte:
E eis que ela não sustentou o olhar
E se esvaiu. Desde então é a morte alheia
Que me abate. Tarde aprendi a gozar
A juventude, e já me ronda a suspeita
De que jamais serei plenamente adulto:
Antes de sê-lo, serei velho. Que ao menos
Os deuses façam felizes e maduros
Marcelo e um ou dois dos meus futuros versos.


_Antonio Cicero.

Solistas


Nascem os poemas nas horas turvas
Ferocidade raiada em ondas
Os dentes escarlates da tarde
                A solidão.
Ferem dissonantes o tráfego
                in
Visibilidade ao redor
Fogo salgado nas águas rápidas
                Da cidade.
Morrem os poetas nas esquinas
Flautistas breves da impossibilidade.


_Fernando Paixão.

sábado, 18 de outubro de 2014

Se entregar a um escritor é confirmar amor verdadeiro. Somente por aguentar seus devaneios.
A quem diga que se apaixonar por um escritor é assinar contrato de imortalidade. “ Viverá para sempre em seus versos”, dizem eles.
Para as mães, creio eu que é declare-se louco(a). Pois escritor é bicho insano. E as espertas mães veem isso.
Mas e eles, como chamam seu amor por suas amantes?
Ouvi dizer que eles simplesmente as amam. Então pensei o que qualquer outra pessoa normal pensaria, só amam? Só isso eles tem a dizer? Estes que escrevem romances espetaculares, declarações emocionantes, textos de derramas rios lagrimas. Só dizem que amam?
Algum tempo depois tive oportunidade de conhecer e perguntar minha duvida a um certo escritor.
- Mas só amam?
Ele sorriu com um ar de deboche e disse:

- Só amamos? Que mais queres de nós? Alias, a mais o que querer? Não é o amor o maior e mais belo sentimento que há? Não é o amor aquilo que ninguém consegue explicar ou dimensionar? Não é aquilo que faz os crentes respirarem? Que nos da sentido pra continuar, que cura salva, da vida e faz renascer?  Não é o amor responsável por estas e muitas mais bênçãos que a vida nos trás? Então por que nós escritores nunca podemos simplificar? Ate porque dizer só amar, ainda não seria simplificar. 

sexta-feira, 19 de setembro de 2014


Você acorda, já percebe que há algo faltando, um sentimento, uma respiração, um amparo, uma motivação.
Olha pros lados, fechas os olhos, sente a presença. Olha para os lados, não há nada, não há ninguém.
O que eu sinto? O que é isso? Há nome? Explicação? Alguém me ache, me fale, me leve.
Levar pra onde? Lugar não tenho, não pertenço.
Só arraste-me ate ele. Quem é ele? Nunca vi, nem senti.
Onde ele esta? Nunca fui.
Não sei o caminho. Como o encontro?
Ó vendável, só me leve, lá deve ser melhor, lá é quente de aconchego e isso é o que preciso.
Não preciso de hora, dia nem local, nem me avise, somente leve-me, não quero fotos pra saber como é, nem quem é, meu peito já sabe a essa distancia, de perto duvida não restará.
Será que é saudade o que lateja? Ah mas como poderia? Como se sente falta de alguém que nunca teve, nunca viu, tocou ou ao menos cheirou? Mas acho que é isso o que sinto...saudade...

E às vezes também o sinto, deitado em minha cama mexendo em meus cabelos. Ás vezes o vejo dentro de gotas de chuva. Às vezes sinto seu cheiro no ar, como se estivesse ali do meu lado. Às vezes me perco por alguns segundos... acho que vou pra lá, pra onde ele esta.

domingo, 31 de agosto de 2014

Esperar que a dor desapareça
E que o sol reapareça
Esperar que o amor prevaleça
E que a luz continue acesa
Esperar que a distancia fique velha e apodreça
E esperar que as estrelas do céu, desçam

Se anoitece, você aparece
   Espero.
E você desce

Ah estrela minha, meu amor só cresce.


sábado, 23 de agosto de 2014

Quantos homens sabem observar?
E, desses poucos que sabem, quantos
observam a si próprios? “Cada pessoa é o
ser mais distante de si mesmo”
A VIAGEM ATÉ NÓS MESMOS é sempre a mais longa e tortuosa, pois
implica dar muitas voltas para encontrar algo que estava tão perto que éramos incapazes de ver.
Não é por acaso que, das três perguntas existenciais clássicas – Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? –, a da
identidade venha em primeiro lugar, pois aquele que não sabe
quem é dificilmente terá consciência do que deixou para trás ou
do destino que tem diante de si.
Tentamos responder à pergunta “Quem somos?” falando sobre nossa profissão e o cargo que ocupamos, mostrando o carro
que dirigimos ou mesmo dizendo qual religião professamos, mas
esses elementos estão à margem da verdadeira essência de uma
pessoa.
Assim como nossos sonhos nos definem, nossa identidade é a sensibilidade que nos distingue dos demais companheiros humanos, é nossa contribuição única para o mundo, nossa missão pessoal.

Encontrar essa missão pode ser o trabalho de toda uma vida, mas apenas o fato de buscá-la já nos permite saber aonde vamos.

_Livro: Nietzsche para estressados
"Diante de mim havia duas estradas.
Escolhi a estrada menos percorrida
E isso fez toda a diferença..."

"...Você tem o seu caminho. Eu tenho o meu.
O caminho correto e único não existe..."

Eu sei o que há por traz desses olhos tão tristes
Eu sei porque os traz tão carregados
Não é sono, é cansaço
Não com peso, mas com fardo

Eu sei o que há por traz desse sorriso escondido
Eu sei porque ele se perde comigo
Não é amor, é liberdade
Não é falta de maldade, mas é malicia

Eu sei o que há por traz da canção
Eu sei porque ela grita em teu coração
Não é voz quem fala, é dor, é alegria
Não é agrado, é poesia

Eu sei o que há por traz da sua solidão
Eu sei porque lhe escrevo minha ermitão
Não é melancolia, é saudade
É falta na nossa igualdade, separada pela crueldade

Que assim nos fez, solidão.
Escrevo minhas historias pra você,
crio estórias pra você,
Derramo palavras no papel pra você ler,
grito calada minha saudade pra você escutar sem ver,
molho de amor o papel em branco quando já não consigo descrever,
o que poderia fazer, não sei ver ate onde vai esta imensidão que você me deu,
rabisco os sentimentos que só fazem crescer
dou vida ao que penso ser você
e a cada linha meu coração bate por você
A cada palavra eu vivo, e é por você,
Através de você
Em cada paragrafo você se torna mais real

Se torna minhas palavras, assim, imortal.

“E quando de, de fato,
O amor povoar meu ser, eu não vou caber em canto nenhum mais,
Senão em você” _ Zara


Aperta.
Aperta o peito.
Segura a lagrima.
Prende a dor, a carência e o desespero.
Afoga.
Afoga a saudade.
Sufoque o anseio a pele, o cheiro e o calor dele.
Amarre todos os desejos.

Esqueça.
Tente ao menos por um segundo não sentir o peso.
Do vazio.
Da falta.
Esqueça.
O que não foi ainda será.
Esqueça.
Não olhe o relógio, não olhe o calendário. Assim não passa, assim não esquece.

A saudade só mata quem se entrega. Então espera.
A saudade vem e não vai. Então alie-se a ela.
Vá ate a varanda.
Senta, tome chá e espera.

Que uma hora o vento a leva.

sábado, 2 de agosto de 2014

O Suicida e o Computador


Depois de fazer o laço da forca e colocar uma cadeira embaixo, o escritor sentou-se atrás da sua mesa de trabalho, ligou o computador e digitou:

"No fundo, no fundo, os escritores passam o tempo todo redigindo a sua nota de suicida. Os que se suicidam mesmo são os que a terminam mais cedo."

Levantou-se, subiu na cadeira sob a forca e colocou a forca no pescoço. Depois retirou a forca do pescoço, desceu da cadeira, voltou ao computador e apagou o segundo "no fundo". Ficava mais enxuto. Mais categórico. Releu a nota e achou que estava curta. Pensou um pouco, depois acrescentou:

"Há os que se suicidam antes de escapar da terrível agonia de encontrar um final para a nota. O suicidio substitui o final. O suicídio é o final."

Levantou-se, subiu na cadeira, colocou a forca no pescoço e ficou pensando. Lembrou-se de uma frase de Borges. Encaixa, pensou, retirando a corda do pescoço, descendo da cadeira e voltando ao computador. Digitou:

"Borges disse que o escritor publica seus livros para livrar-se deles, senão passaria o resto da vida reescrevendo-os. O suicídio substitui a publicação. O suicídio é a publicação. No caso, o livro livra-se do escritor."

Levantou-se, subiu na cadeira, mas desceu da cadeira antes de colocar a forca no pescoço. Lembrara-se de outra coisa. Voltou ao computador e, entre o penúltimo e o último parágrafo, inseriu:

"Há escritores que escrevem um grande livro, ou uma grande nota de suicida, e depois nunca mais conseguem escrever outro. Atribuem a um bloqueio, ao medo do fracasso. Não é nada disso. É que escreveram a nota, mas esqueceram-se de se suicidar. Passam o resto da vida sabendo que faltou alguma coisa na sua obra e não sabendo o que é. Faltou o suicídio."

Levantou-se, ficou olhando a tela do computador, depois sentou-se de novo. Digitou:

"No fundo, no fundo, a agonia é saber quando se terminou. Há os que não sabem quando chegaram ao final da sua nota de suicida. Geralmente, são escritores de uma obra extensa. A crítica elogia sua prolixidade, a sua experimentação com formas diversas. Não sabe que ele não consegue é terminar a nota."

Desta vez não se levantou. Ficou olhando para a tela, pensando. Depois acrescentou:

"É claro que o computador agravou a agonia. Talvez uma nota de suicida definitiva só possa ser manuscrita ou datilografada à moda antiga, quando o medo de borrar o papel com correções e deixar uma impressão de desleixo para a posteridade leva o autor a ser preciso e sucinto. Tese: é impossível escrever uma nota de suicida num computador."

Era isso ? Ele releu o que tinha escrito. Apagou o segundo "no fundo". Era isso. Por via das dúvidas, guardou o texto na memória do computador. No dia seguinte o revisaria.

E foi dormir.

-
_Luis Fernando Veríssimo
A cada curva que passo, deixo o futuro do que poderia ser. Deixo uma vida, um "se", um quem sabe e um talvez. Os morros cobrem o outro lado das histórias que vão ficando para trás.
Coisas sem terminar, umas sem começar e outras encerradas.
Passando por estas histórias, meu futuro e quem eu poderia ser somem com o vento e são arrastados pelo tempo.
Mesmo com tudo, a estrada não acaba e as curvas continuam, me mostrando que o clichê esta certo, a história não acaba quando termina.

A tristeza é uma casa em que as cadeiras se esqueceram de como nos segurar, as paredes de como nos conter, os espelhos de como nos refletir.
A tristeza é uma casa que desaparece cada vez que alguém bate a porta, uma casa que se vai com o vento à menor rajada, que se enterra no solo enquanto todos estão dormindo.
A tristeza é uma casa em que ninguém pode proteger você, em que a irmã caçula vai envelhecer mais que a mais velha, em que as portas não deixam mais você entrar nem sair."

_Livro: O céu esta em todo lugar

"Minha
Saudade
É
Toda
Sua"
"Em todo lugar o homem culpa a natureza e o destino, embora seu destino seja nada mais que o eco de seu caráter e suas paixões, seus erros e suas fraquezas."
_ Demócrito.

quinta-feira, 24 de abril de 2014



#NinguemMereceSerEstuprado

Mulheres e homens de todo o Brasil estão protestando pelo Facebook após o resultado de uma pesquisa divulgada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) que apontou que a maioria dos brasileiros acha que “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”. Segundo a pesquisa, 65,1% das pessoas – incluindo homens e mulheres – concordaram com essa informação. Já 58,5% concordam com a afirmação “Se mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”. 
“O que indigna é saber que as mais da metade das pessoas que responderam a pesquisa são mulheres, conforme um estudo de cada quatorze mulheres uma será vitima de abuso sexual. Então das 14 mulheres que mais gostamos uma vai ser vitima ou conforme pesquisa vai merecer o estupro... 
Eu ainda acredito que no final o bem vence. Mas precisamos nos unir dia a dia contra essa política machista, deformada e injusta”, diz Ana Carolina Rebello. 
Em muitos sites tem pessoas dizendo que estes homens deviam receber pena de morte ou castração. Não acredito que seja a solução, porque isso significa olho por olho dente por dente. Ódio atrai vingança, e essa vingança quer dizer escolher sobre o destino da vida de outro ser, não importa o quão ruim e monstruoso seja este ser. Não temos o direito de decidir acabar ou não com a vida deste. Enquanto isso, poderíamos estar refletindo o fato de que ninguém pensa na educação desses homens na infância e na adolescência. Hoje em dia vemos garotos pequenos falando de garotas como símbolos sexuais e são poucas às vezes em que vi os pais tomando alguma atitude. E sim, muitas vezes os estupradores são doentes, mas se o governo oferece um tipo que prisão com tratamento psicológico, talvez já significasse algum avanço.
“Nina Queiroz (iniciou campanha online contra a ideia de atribuir culpa do estupro à vítima) ressalta que o novo Plano Nacional de Educação (PNE), que está tramitando no Congresso, prevê uma educação voltada para a promoção da igualdade de gênero. No entanto, diz a socióloga, esse princípio está sendo questionado por grupos conservadores, sobretudo pela bancada evangélica, que querem retirá-lo do texto”.
"Os grupos conservadores estão numa campanha ferrenha para que isso seja eliminado do texto do plano. Eles estão combatendo o que chamam de uma ideologia de gênero. Isso é um retrocesso gravíssimo. Se o governo permitir que isso aconteça estará sendo conivente com essa cultura do estupro revelada nesses dados que o Ipea apresentou", disse Nina.
E vários internautas estão ironizando o conteúdo divulgado pelas participantes, associando feministas a mulheres indesejadas, afirmando que mulheres deveriam andar armadas para não serem violentadas e lançando provocações, como "ninguém é estuprada em casa lavando a louça". 
Realmente em casa ninguém é estuprada, mas por que as mulheres não deveriam ter direito a sair tranquilamente pelas ruas? Por que só os homens tem esse direito? Quem foi que disse que eles são melhores ou piores? É ai que volta a questão, que tipo de educação estes homens tinham em suas casas? Os machismos destes, só servem de apoio aos estupradores, será que estão lembrando que suas mães, irmãs e namoradas podem ser as próximas vítimas?
Uma pesquisa realizada entre maio e junho de 2013 em todo o Brasil indica que as maiorias das pessoas entrevistadas concordam que maridos que batem nas esposas tem que ir para a cadeia. E mais da metade concordou que a culpa não é da mulher. Então por que seria diferente neste caso? Algumas pessoas dão os seguintes exemplos: “Em casa, a mulher não precisa fazer nada para apanhar, muitas vezes uma simples reclamação pode acarretar na violência dos maridos”. Mas uma contra opinião diz: “A culpa não é da mulher se ela sente calor ou se o trabalha em uma zona pouco movimentada da cidade”. Nunca é culpa da vítima, em nenhum caso.
. Contudo a campanha não nasceu com o ideal de conscientizar estupradores, como estão afirmando algumas pessoas nas redes sociais, mas sim, de conscientizar pessoas que apoiam o fato de que mulheres com roupas ousadas devem ser estupradas. Isso deve parar, antes o estupro se torne algo natural e merecedor.

#NinguemMereceSerEstuprado 

Porque eu quero ser jornalista...

Por mais que eu adorasse a ideia, eu não sou uma escritora, não sou aquela que vai levar as pessoas para outros lugares, que vai fazê-las atravessar pontes, criar mundos, entrar em armários, criar universos e versos. Não sou e isso me da uma ponta de tristeza às vezes...

Mas tudo bem, pois sou aquela que quer te mostrar que o mundo também pode ser excelente aqui fora, sou aquela que quer que todos vejam o mundo, mesmo que por simples fotos, textos e sentimentos escritos. Quero que vocês vejam o mundo como realmente é, quero que fantasiem sobre ele e com ele. Quero que vocês saibam o que acontece nos horizontes além das suas rotinas. Que vocês saibam que todo tipo de informação, boa ou ruim, sobre esse nosso lar, que chamamos de Terra, que essa humilde transmissora puder fornecê-los eu o farei.
Eu sou aquela que quer trabalhar em um jornal, um jornal de verdade. E que vai ficar atrás do computador, tentando pensar em uma forma de lhes dar alguma noticia ruim, sem que percam as esperanças, que vai estar sentada na cadeira, sem conseguir escrever, pois não para de sorrir com algum comunicado bom.

Sei que não será fácil. Mas que tipo de pessoa eu seria, se não tentasse?
Sumi porque só faço besteira em sua presença, fico mudo
quando deveria verbalizar, digo um absurdo atrás do outro quando
melhor seria silenciar, faço brincadeiras de mau gosto e sofro
antes, durante e depois de te encontrar.
Sumi porque não há futuro e isso não é o mais difícil de
lidar, pior é não ter presente e o passado ser mais fluido que o ar.
Sumi porque não há o que se possa resgatar, meu sumiço é
covarde mas atento, meio fajuto meio autêntico, sumi porque
sumir é um jogo de paciência, ausentar-se é risco e sapiência,
pareço desinteressado, mas sumi para estar para sempre do seu
lado, a saudade fará mais por nós dois que nosso amor e sua
desajeitada e irrefletida permanência.

– Martha Medeiros

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?

~~ Ferreira Gullar.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser.
O que eu gostaria de ser era uma lutadora. Quero dizer, uma pessoa que luta pelo bem dos outros. Isso desde pequena 
eu quis. Por que foi o destino me levando a escrever o que já escrevi, em vez de também desenvolver em mim a qualidade de 
lutadora que eu tinha? Em pequena, minha família por brincadeira chamava-me de ‘a protetora dos animais’. Porque bastava
acusarem uma pessoa para eu imediatamente defendê-la.
[...] No entanto, o que terminei sendo, e tão cedo? Terminei sendo uma pessoa que procura o que profundamente se
sente e usa a palavra que o exprima.
É pouco, é muito pouco.”

– Clarice Lispector

Acabar

Não vês que acabas todo o dia. 
Que morres no amor. 
Na tristeza. 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que te renovas todo dia. 
No amor. 
Na tristeza 
Na dúvida. 
No desejo. 
Que és sempre outro. 
Que és sempre o mesmo. 
Que morrerás por idades imensas. 
Até não teres medo de morrer. 
E então serás eterno. 
Não ames como os homens amam. 
Não ames com amor. 
Ama sem amor. 
Ama sem querer. 
Ama sem sentir. 
                                             Ama como se fosses outro. 
Como se fosses amar. 
Sem esperar. 
Tão separado do que ama, em ti, 
Que não te inquiete 
Se o amor leva à felicidade, 
Se leva à morte, 
Se leva a algum destino. 
Se te leva. 
E se vai, ele mesmo... 
Não faças de ti 
Um sonho a realizar. 
Vai. 
Sem caminho marcado. 
Tu és o de todos os caminhos. 
Sê apenas uma presença. 
Invisível presença silenciosa. 
Todas as coisas esperam a luz, 
Sem dizerem que a esperam. 
Sem saberem que existe. 
Todas as coisas esperarão por ti, 
Sem te falarem. 
Sem lhes falares. 
Sê o que renuncia 
Altamente: 
Sem tristeza da tua renúncia! 
Sem orgulho da tua renúncia! 
Abre as tuas mãos sobre o infinito. 
E não deixes ficar de ti 
Nem esse último gesto! 
O que tu viste amargo, 
Doloroso, 
Difícil, 
O que tu viste inútil 
Foi o que viram os teus olhos 
Humanos, 
Esquecidos... 
Enganados... 
No momento da tua renúncia 
Estende sobre a vida 
Os teus olhos 
E tu verás o que vias: 
Mas tu verás melhor... 
... E tudo que era efêmero 
se desfez. 
E ficaste só tu, que é eterno.

— Cecília Meireles.