sábado, 5 de outubro de 2013

De tanto pensar



Instalou-se um desespero, acompanhou-se de um medo, deu-se as mãos ao desapego e sofreu em silêncio. Sentiu ser torturado por si próprio, mas não gritou. Ele não estava sendo forte, apenas não quis demonstrar fraqueza. Mas não controlou o choro, e demonstrou uma fraqueza maior ainda. Sentiu não sentir mais nada, nada além de um vazio. E quando sentiu, o vazio ficou pequeno para sentir tantas coisas. Desejava a morte, mas não quis morrer. Desejou dizer milhões de palavras. E disse. Mas nem mesmo o silêncio quis ouvir, foi interrompido pelos próprios soluços. Desligou as luzes, seu reflexo no café da xícara ainda pela metade, era menos úmido que o seu rosto. Acendeu-se um medo. Afogado em si próprio a escuridão demoliu as paredes. Morreu deitado, submergiu em um corpo morto boiando sobre lágrimas. Cobriu-se de cobertores, as mãos estavam trêmulas, mas não fazia frio. A maré não parava de subir, sentiu vergonha de si mesmo. Mesmo com a respiração ofegante, não hesitou-se em cobrir o rosto. E quando o corpo atingiu o limite, a alma se desprendeu. Caminhou em volta da cama e sentou-se ao lado a observar. Ele já não era mais humano, nunca foi, sempre fingiu ser. Se nem ele sabia o que era, a conjunção de corpo e alma nunca foi amigável. Perguntavam-lhe a idade, mas ele não sabia responder. Os anos, os dias e as horas não eram sociáveis para uma alma tão jovem e ao mesmo tempo tão cansada. A definição de que o tempo pode ser medido e cronometrado foi inventado por alguém não tão menos perdido que ele. O tempo não pode ser medido se não puder ser parado. Descobriu o rosto, devagar, com medo do que pudesse ver. Viu tudo e não enxergou nada, fixou o olhar no teto do quarto como se pudesse ver as estrelas. Aos poucos a maré foi abaixando deixando-lhe apenas um sabor amargo e salgado nos lábios. De tanto pensar, a mente esvaziou-se. E então, dormiu. 

 - Anderson Beowulf

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